Afinal, o que é Flow?
A qualidade da experiência subjetiva


Por Yuri Machado


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Muitas pessoas têm me perguntado o que é Flow. Para começar a responder esse questionamento vou  apresentar o psicólogo Mihaly Csikszentmihalyi, autor dos livros "A psicologia da felicidade" e "A descoberta do fluxo". Embora seja um dos pioneiros da Psicologia Positiva e autor de diversos outros livros não publicados no Brasil, Csikszentmihalyi ainda é muito pouco conhecido por aqui.

O conceito de Flow ou experiência ótima pode ser entendido como estado subjetivo que as pessoas relatam quando estão envolvidas de tal maneira em uma atividade, a ponto de esquecer o tempo, a fome, a fadiga e tudo o mais a não ser a própria atividade. Os momentos excepcionais na vida de uma pessoa em que ocorre um total engajamento com a atividade, Csikszentmihalyi denominou experiências de fluxo.

No início da carreira, Csikszentmihalyi desenvolveu diversas pesquisas sobre criatividade. Nesse sentido, buscava atividades que não geravam recompensa extrínseca. Naquele momento o autor decidiu observar artistas trabalhando, pois entendia que essas pessoas tinham motivação intrínseca, ou seja, não dependiam de recompensa externa. As pesquisas iniciais foram direcionadas para atividades como a pintura, música, dança, esporte amador.

Para promover a investigação científica, Csikszentmihalyi desenvolveu o Método da Amostragem da Experiência - MAE (Experience Sampling Method - ESM). O procedimento desenvolvido na Universidade de Chicago, no início da década de 70, envolvia a utilização de um pager (eu sei leitor, isso talvez isso não seja do seu tempo) que avisava — por intermédio de um sinal sonoro — ao participante da pesquisa que já era hora de preencher o formulário.

Com o questionário, Csikszentmihalyi objetivava compreender a qualidade da experiência subjetiva. Para isso, se valeu de perguntas sobre: Quando, Onde, O que, Por Que, Com Quem. Além disso, pretendia entender aspectos cognitivos, emocionais e motivacionais envolvidos.

 

 

“Uma pessoa pode sentir-se feliz ou miserável pela alteração do conteúdo da consciência, independente do que se passa no exterior.”

(Mihaly Csikszentmihalyi)

 

Com freqüência, as pessoas relatam o flow quando estão praticando sua atividade preferida. Csikszentmihalyi sempre afirmou que a qualidade da experiência era mais importante que a natureza da experiência. Assim, praticamente qualquer atividade pode produzir flow, desde que os elementos fundamentais estejam presentes, conforme abaixo:

  1. A experiência ocorre quando existe a hipótese de que a tarefa pode ser completada;
  2. Exige a capacidade de se concentrar no que estamos fazendo;
  3. A tarefa tem objetivos claros;
  4. A tarefa oferece uma resposta imediata (feedback);
  5. Ação com envolvimento profundo e sem esforço;
  6. Permite uma sensação de controle sobre as ações;
  7. Desaparecimento da preocupação com o eu, que retorna mais forte ao final da experiência;
  8. Alteração na percepção da passagem do tempo.

A metáfora do fluxo foi utilizada por diversos entrevistados para descrever a experiência de engajamento com a atividade. Basicamente, podemos afirmar que o flow depende da relação entre o desafio e as habilidades do indivíduo para lidar com uma determinada demanda.

No primeiro "gráfico" de flow, concebido por Csikszentmihalyi a relação entre o nível do desafio e o nível de habilidade proporcionava três dimensões:

  1. Se o desafio estivesse em um nível alto e as habilidades em um nível baixo, o indivíduo experimentava ansiedade.
  2. Se o desafio estivesse em um nível baixo e as habilidades em um nível alto, o indivíduo experimentava tédio.
  3. Entre as duas dimensões acima, havendo compatibilidade desafio/habilidade o indivíduo experimentava o flow.

Posteriormente, com a colaboração do professor Fausto Massimini (Universidade de Milão), o "gráfico" foi aprimorado, passando a contar com oito dimensões. Houve a compreensão de que não bastava que a relação entre desafio e habilidades fossem compatíveis, era necessário também que o desafio e as habilidades estivessem em um nível alto, conforme apresentado abaixo:

 

 

Csikszentmihalyi também sugeriu que quando os três conteúdos da consciência — pensamentos, sentimentos e intenções — estão em sincronia temos a experiência ótima, autotélica ou flow. Por outro lado, quando tais conteúdos não estão em harmonia, o resultado é a entropia psíquica, condição oposta ao flow.

Atualmente, o Csikszentmihalyi é professor de psicologia e gestão na Universidade de Claremont (Califórnia), onde também é diretor do centro de pesquisas sobre qualidade de vida. Em parceria com Howard Gardner, trabalha no "Good work project".  Com base nas pesquisas de Csikszentmihalyi e colaboradores, podemos começar ainvestigar as condições para o trabalho gratificante e avaliar como utilizar forças pessoais e virtudes para construir organizações positivas.

E aí leitor(a), você já experimentou o flow? Como foi a experiência?

 



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